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Abordagens cartográficas

Compreendemos que uma abordagem cartográfica é o conjunto coerente de teoria e metodologia relacionado à representação espacial e que possui características particulares que possibilitam distinguir os mapas elaborados de acordo com seus fundamentos. As diferentes formas de representação que caracterizam cada abordagem cartográfica são resultantes de compreensões diversas do mapa e do processo cartográfico. As abordagens cartográficas utilizam um conjunto básico de técnicas de mapeamento em comum, podendo apresentar outras técnicas específicas, de acordo com o conjunto teórico-metodológico particular a cada uma. Para nossa proposta teórico-metodológica da Cartografia Geográfica Crítica, consideramos três abordagens cartográficas intercomplementares: a semiologia gráfica, a visualização cartográfica e a modelização gráfica. Na CGC essas abordagens cartográficas devem ser utilizadas em conjunto para que o mapeamento possa contribuir da forma mais significativa possível na análise do espaço. Vejamos as especificidades de cada uma dessas abordagens cartográficas.

 

Semiologia gráfica

A obra Semiologia Gráfica: os diagramas, as redes e os mapas, escrita por Jacques Bertin em 1962, apresenta os princípios do que ele denominou semiologia gráfica. Nesta obra, o autor centraliza seus esforços na normatização da representação gráfica para o tratamento e comunicação de informações através de três elaborações básicas: as redes, os diagramas e os mapas. Estes são principalmente elementos de comunicação. O autor define assim a representação gráfica(46):

A representação gráfica constitui um dos sistemas de signos básicos concebidos pela mente humana para armazenar, entender e comunicar informações essenciais. Como uma “linguagem” para o olho, a representação gráfica beneficia por suas características ubíquas de percepção visual. Como um sistema monossêmico, ela forma a porção racional do mundo da imagem. (BERTIN, 1983 [1962], p.2).

Bertin também afirma que para entender a linguagem gráfica é necessário que a distingamos de outras formas de linguagem, como a musical, a verbal e a matemática, as quais são percebidas em seqüência linear ou temporal. A linguagem gráfica não deve ser confundida com representações gráficas polissêmicas como a pintura e a cinematografia.. (BERTIN, 1983 [1962]).

Uma das principais bases da proposta de Bertin é a monossemia da representação gráfica. No sistema monossêmico o significado de cada signo é conhecido a priori da observação do conjunto de signos, o que não permite lacunas para interpretações dúbias sobre o que determinado signo representa. A monossemia permite que a leitura dos signos seja padronizada para todos os leitores. A legenda é o elemento responsável pela padronização do significado de cada signo. (BERTIN, 1983 [1962]). A monossemia da representação gráfica é importante para que não haja dúvidas sobre o que está representado. É necessário dizer que a padronização do significado de cada signo não implica na padronização da interpretação que cada leitor faz sobre a representação gráfica, em especial do mapa. Assim, cada leitor, de acordo com seus conhecimentos e ideologias, pode estabelecer diferentes relações entre os mesmos elementos representados.

Ao escrever sobre a representação gráfica como um sistema visual, Bertin afirma que para a leitura de uma tabela de dados são necessários diversos momentos de apreensão da informação, porém, se os mesmos dados forem representados graficamente, a sua análise requer somente um instante de percepção, o que facilita a comparação. Na representação gráfica é possível apreender de uma só vez três variáveis, sejam elas as duas dimensões do plano e a variação de símbolo. A eficiência da representação gráfica está no fato dela ser um domínio monossêmico de percepção espacial. (BERTIN, 1983 [1962]). A representação gráfica permite analises mais completas através da visualização dos dados, seja considerando um só componente ou o conjunto de componentes representados em uma mesma construção gráfica.

Em uma representação gráfica as informações (componentes ou variáveis) são representadas pelas variáveis visuais. Bertin define oito variáveis visuais: as duas dimensões do plano (que no caso dos mapas operam como uma só variável visual), tamanho, valor, granulação, cor, orientação e forma. Essas variáveis, quando empregadas no plano, podem apresentar três tipos de implantação: ponto, linha e área. A utilização das duas dimensões do plano é chamada de implantação. As outras seis variáveis visuais (tamanho, valor, granulação, cor, orientação e forma) são nomeadas variáveis retínicas e sua utilização chamada de elevação, pois elas são responsáveis pela representação de informações impossíveis somente com as duas dimensões do plano. (BERTIN, 1983 [1962]).

Os componentes podem ser classificados segundo três níveis de organização: qualitativo, ordenado e quantitativo.

O NÍVEL QUALITATIVO: (ou nível nominal) inclui todos os componentes de simples diferenciação (comércio, produtos, religiões, cores ...). Envolve sempre duas abordagens perceptuais: isso é similar àquilo, e eu posso combinar eles em um mesmo grupo (associação). Isso é diferente daquilo e pertence a um outro grupo (diferenciação).
O NÍVEL ORDENADO: envolve todos os conceitos que permitem um ordenamento dos elementos de maneira universalmente conhecida (ordem temporal, ordem de variações sensoriais: frio-morno-quente, preto-cinza-branco, pequeno-médio-grande; uma ordem de valores morais: bom-médio-ruim...). Esse nível inclui todos os conceitos que nos permitem dizer: este mais do que aquele e menos do que o outro.
O NÍVEL QUANTITATIVO: (métrico) usado quando fazemos uso de unidades contáveis (isso é um quarto, o triplo, ou quatro vezes aquilo). (BERTIN, 1983 [1962], p.6-7).

Os níveis de organização dos componentes são sobrepostos: o nível quantitativo é ordenado e qualitativo, o ordenado também é qualitativo, mas o qualitativo não é nem quantitativo nem ordenado, porém pode ser arbitrariamente reordenável. (BERTIN, 1983 [1962]).

Da mesma forma como os componentes podem ser classificados segundo níveis de organização as variáveis visuais também o podem. Para que um componente possa ser representado eficientemente é necessário que seja utilizada uma variável visual com o mesmo nível de organização. O nível de organização de cada variável visual é dado por sua capacidade de representação dos níveis de organização dos componentes e proporcionar ao leitor diferentes agrupamentos, distribuições, associações ou isolamentos dos signos. Os níveis de organização das variáveis visuais são seletivo, associativo, ordenado e quantitativo. (BERTIN, 1983 [1962]).

Uma variável é SELETIVA (?) quando nos permite imediatamente isolar todas as correspondências pertencentes à mesma categoria (desta variável).
Essas correspondências formam “uma família”: a família dos signos vermelhos, aquela dos signos verdes; a família dos signos claros, aquela dos signos escuros; a família dos signos da direita, aquela dos signos da esquerda do plano.
Uma variável é ASSOCIATIVA (=) quando permite agrupamento imediato de todas as correspondências diferenciadas por esta variável.
Essas correspondências são percebidas “todas as categorias combinadas”. Quadrados, triângulos e círculos que são pretos e do mesmo tamanho podem ser vistos como signos semelhantes. “Forma” é associativa. Círculos brancos, cinzas ou pretos do mesmo tamanho não serão vistos como similares. “Valor” não é associativo. Uma variável não associativa será nomeada dissociativa ( ).
Uma variável é ORDENADA (O) quando a classificação visual de suas categorias, de suas etapas, é imediata e universal.
Um cinza é percebido como intermediário entre o branco e o preto, um tamanho médio é intermediário entre um pequeno e um grande; o mesmo não é verdadeiro para um azul, um verde e um vermelho, os quais, em um mesmo valor, não produzem imediatamente uma ordem.
Uma variável é QUANTITATIVA (Q) quando a distância visual entre duas categorias de um componente ordenado pode ser imediatamente expressa por uma relação numérica.
Um comprimento é percebido como igual a três vezes um outro comprimento; uma área é quatro vezes outra área. Note que a percepção quantitativa visual não tem a mesma precisão das medidas numéricas (se tivesse, os números, sem dúvida, não teriam sido inventados). Contudo, frente a dois comprimentos em uma relação aproximada de 1 para 4, sem auxílio algum, a percepção visual nos permite afirmar que a relação não significa nem 1/2 nem 1/10. A percepção quantitativa é baseada na presença de uma unidade que pode ser comparada com todas as categorias na variável. Não permitindo o branco o estabelecimento de uma unidade de medida para o cinza ou preto, relacionamentos quantitativos não podem ser traduzidos por variação de valor. Valor pode somente traduzir uma ordem. (BERTIN, 1983 [1962], p.48).

A figura 10.2 apresenta as variáveis visuais segundo os tipos de implantação e os níveis de organização. Destacamos que na elaboração de mapas as duas dimensões do plano são comprometidas com a base cartográfica, por isso os demais componentes são todos representados pelas variáveis retínicas.

 


FIGURA 10.2– As variáveis visuais segundo Bertin
Fonte: Bertin (2001)

 

Outro elemento importante para o entendimento da proposta de Bertin (1983) é o conceito de imagem. O autor usa o termo imagem “para descrever a forma significativa imediatamente perceptível no instante mínimo de visualização.” (BERTIN, 1983 [1962], p.151). Para que uma representação gráfica seja uma imagem é necessário que os componentes sejam representados por variáveis ordenadas. Deste modo, para a elaboração de um mapa imagem, é necessário que a variável retínica seja ordenada, já que as duas dimensões do plano também são. Isso permite que as informações do mapa imagem sejam apreendidas em um único instante de observação. Bertin afirma que uma imagem representa no máximo três componentes, dois pelas duas dimensões do plano e um por uma variável retínica. No caso dos mapas e das redes, são imagens aqueles que apresentam dois componentes, um pelas duas dimensões do plano e outro por uma variável retínica ordenada. As construções gráficas com mais de três componentes (no caso dos mapas e das redes, aqueles com mais de dois componentes) não são como imagens; são várias imagens e necessitam de diversos instantes de percepção para que as informações sejam apreendidas. Para casos em que seja necessário representar diversos componentes, o autor propõe a elaboração de uma imagem para cada componente e em seguida a criação de uma representação gráfica que leve em consideração todos os componentes. Este procedimento possibilita a resposta de todos os tipos de questões possíveis à informação. (BERTIN, 1986 [1977]).

As considerações de Bertin (1983 [1962]) vão além do exposto aqui. O autor também aborda no trabalho outros detalhes sobre a elaboração de redes, diagramas e mapas. Quanto às suas considerações sobre os mapas, o autor analisa ainda, dentre outros temas, a questão da escala, projeção e tipos de mapas. A semiologia gráfica é a base essencial para o mapeamento porque apresenta as regras para obtenção do melhor resultado para a comunicação através do mapa. Por este motivo, as demais abordagens cartográficas estão baseadas na semiologia gráfica, porém avançam em relação à investigação através do mapa e à sua discursividade.

Visualização cartográfica

A visualização cartográfica consiste em descobrir e gerar novas informações através do mapeamento. Ela é resultado da evolução das técnicas de exploração de informações com o uso do computador no mapeamento, o que permitiu agilidade no trabalho com grandes volumes de dados. Segundo MacEachren e Ganter (1990) a visualização cartográfica está inserida no desenvolvimento da exploração de informações através da visualização científica e implica em desenvolver imagens de informações não visíveis anteriormente; descobrir através do imageamento. A visualização não é o resultado de um processo, mas o processo em si. A Cartografia ocupa lugar de destaque na visualização. MacEachren e Ganter apresentam os seguintes pressupostos sobre a visualização:

1 Visualização é um processo mental. Como tal, existe por séculos. Este fato parece ter sido mais visado com o advento recente acerca da ‘visualização’ computadorizada;
2 Gráficos de computadores podem facilitar a visualização. Ênfases recentes têm sido em como gerar imagens, mais do que como as imagens podem gerar novas idéias;
3 O objetivo da visualização cartográfica (como de qualquer forma de visualização científica) é produzir uma compreensão científica pela facilitação da identificação de padrões, relações e anomalias nos dados;
4 A reestruturação dos problemas (olhando para eles a partir de uma nova perspectiva) é a chave para a compreensão;
5 Gráficos desenhados simplesmente para ‘comunicar’ o que já sabemos não promovem as novas perspectivas necessárias para alcançar a compreensão do desconhecido. (MACEACHREN e GANTER, 1990, p.65).

Duas definições de visualização cartográfica estão presentes no trabalho de MacEachren. A primeira diz que a visualização seria possível tanto em meios analógicos quanto em meios digitais, desde que torne problemas espaciais visíveis. (MACEACHREN et al., 1992 apud SLOCUM, 1999). Já a segunda definição de visualização cartográfica está mais ligada ao uso da informática e ambientes de alta interatividade entre homem e mapa, sendo pautada na comparação com a comunicação cartográfica, como demonstra a figura 10.3. O autor propõe que essas duas abordagens são extremidades de uma escala de gradação e que se diferenciam segundo três características. As características da comunicação cartográfica são: a) atividade publica (ou seja, direcionada à publicação e leitura); b) baixo nível de interatividade entre homem e mapa (seja esta relação mapeador-mapa ou usuário-mapa) e c) objetivação principalmente de apresentar informações já conhecidas. Ao contrário, a visualização cartográfica tem como características: a) ser uma atividade privada, ou seja, o mapa é utilizado como instrumento de investigação, apesar de manter a propriedade de comunicação; b) alto nível de interatividade entre homem e mapa e c) objetivação de revelar informações desconhecidas. (MACEACHREN, 1994 apud SLOCUM, 1999).

Diferente da comunicação cartográfica, a visualização cartográfica prevê a utilização do mapa como instrumento de investigação na análise espacial. Enquanto o princípio da comunicação cartográfica é representar (e comunicar) informações conhecidas, a visualização cartográfica visa colocar questões sobre o que ainda não conhecemos. (MACEACHREN e GANTER, 1990). Segundo Crampton (2001) a visualização consiste em uma ruptura com o modelo da comunicação, pois opta pela polissemia e multiplicidade em detrimento da monossemia, pela “exploração ao invés da apresentação e da contingência no lugar da finalidade.” (p.244).

FIGURA 10.3 – Cubo de MacEachren
Fonte: MacEachren (1994)

 

Antes do advento da informática, a visualização era incipiente e morosa e só se tornou realmente viável através das possibilidades de exploração de grandes quantidades de dados e alta interatividade mapeador/usuário-mapa. As principais ferramentas advindas com o uso do computador e que possibilitam a visualização cartográfica são os Sistemas de Informações Geográficas (SIG), os atlas interativos (em que o usuário tem acesso à um banco de dados e pode cruzar as informações), as animações (nas quais é possível apreender a dimensão temporal) e a cartomática(47) . Segundo Waniez (2002) o termo cartomática foi cunhado por Brunet (1987) e agrupa Cartografia e automática; refere-se “ao conjunto de procedimentos matemáticos e gráficos destinados a traduzir sobre uma base cartográfica a variação espacial de uma variável estatística” (WANIEZ, 2002, p.47). A utilização de ferramentas da informática no trabalho com os dados estatísticos está diretamente ligada à cartomática. (WANIEZ, 2002).

Por ser uma ferramenta de grande potencialidade, o SIG geralmente inclui também as ferramentas cartomáticas, porém, existem programas específicos para o trabalho com dados estatísticos. Um deles é o Philcarto (WANIEZ, 2008). Este programa inclui, além de ferramentas básicas de mapeamento, técnicas de análise estatísticas como gráfico bivariável, diagrama triangular, análise de correlação espacial, suavização de dados, análise de superfície de tendência, análise multivariada (análise de componentes principais e também classificação hierárquica ascendente), dentre outras. A possibilidade de representar instantaneamente uma mesma variável de diversas formas é uma prática inerente à visualização cartográfica, pois consiste em uma forma de explorar os dados, observar, apreender e correlacionar o fenômeno espacialmente, o que possibilita elaboração de questionamentos e o descobrimento de novas informações.

Embora a semiologia gráfica esteja muito mais ligada à comunicação cartográfica, seus princípios básicos são utilizados na visualização cartográfica. O que as diferencia é a função do mapa, muito mais abrangente e provedora de possibilidades na visualização. As possibilidades da visualização cartográfica confere ao mapa um outro papel no interior da Geografia. Antes, o mapa estava ligado quase exclusivamente ao armazenamento e comunicação das informações espaciais, hoje, porém, com a visualização cartográfica, ele se tornou um instrumento de pesquisa que possibilita novas descobertas, revela padrões, formas, relações e dissimetrias no espaço. Neste contexto, a visualização cartográfica reafirma a necessidade e a potencialidade da elaboração e uso do mapa na Geografia.

Modelização gráfica ou coremática

A modelização gráfica ou coremática é uma proposta do geógrafo francês Roger Brunet e diversos autores têm colaborado para o seu desenvolvimento. O primeiro artigo sobre o tema foi publicado por Brunet na revista L`espace géographique em 1980 e a referência mais completa está no livro Le déchiffrement du monde: théorie et pratique de la géographie (BRUNET, 2001 [1990]). Nessa obra a coremática está inserida na ampla proposta de análise espacial do autor, por isso, vai além de uma metodologia para a representação do espaço. A teoria que é inerente à coremática tem relação com todo o conjunto teórico da Geografia.

A coremática tem como propósito analisar os sistemas de forças resultantes da interação entre os diferentes atores na produção do espaço geográfico (ver seção 1.1). Esses sistemas de força, ou sistemas geográficos, produzem as figuras geográficas, que “são expressão de estruturas elementares pelas quais passa o domínio do espaço”. (p.195). Segundo Brunet (2001 [1990]) as figuras geográficas são recorrentes e por isso ele propõe um conjunto de 28 delas que são chave e compõem a base de um alfabeto geográfico. A essas figuras Brunet dá o nome de corema (chorème), com referência ao radical grego que designa espaço. A figura 10.4 mostra os 28 modelos que representam os coremas a partir de quatro elementos de base: ponto, linha, área e rede. “Os coremas, enquanto estruturas, são abstrações. [...] não se desenha uma estrutura, mas um modelo.” (p.198-9). Com esta frase Brunet explicita a diferença entre corema e modelo. O corema é a abstração que fazemos quando lemos a realidade, é o real que apreendemos e representamos através dos modelos gráficos. O modelo espacial é a representação da visão que temos da realidade, do espaço, de seu arranjo, formas, organizações ou estruturas; ele é uma “representação formal de um fenômeno.” (p.332). A subjetividade do modelo gráfico é bem expressa por Ferras (1993) “o modelo gráfico propõe uma representação (e não a representação) de uma realidade geográfica” (p.9). Como uma caricatura, o modelo retém somente alguns elementos do real. O espaço geográfico é formado por um conjunto de coremas em composição. Essas composições de coremas são as mais variadas, porém Brunet percebeu que algumas são recorrentes e deu a elas o nome de corotipos (chorotypes).

FIGURA 10.4 – Coremas propostos por Brunet
Fonte: Brunet (1990)

 

Brunet (1980) destaca que os principais modelos são: gerais, regionais, elementares e específicos. Modelos gerais: são aqueles modelos presentes nos manuais de Geografia, tais como o modelo de Christaller e de von Thünen, são concebidos como aplicáveis ao mundo todo e possuem geralmente expressão matemática e gráfica(48). Modelos regionais: têm aplicação restrita temporal e espacialmente, porém são aplicáveis a um número elevado de casos. São representações de tipos particulares de organização. Modelos elementares(49): trata-se da representação de estruturas de base da organização espacial. Eles são os componentes dos modelos específicos. Cada modelo elementar é uma dimensão do modelo específico. Modelos específicos: são os modelos que representam uma organização única. Eles não são transponíveis para outros lugares. Nos modelos específicos não se compara o objeto a um modelo de referência, mas se compara um objeto a outro e procura-se compreender a estrutura do objeto. (BRUNET, 1980). Interessam para a modelização gráfica os modelos regionais, elementares e específicos.

Segundo Théry (2004) existem três hipóteses básicas que fundamentam a modelização gráfica. A primeira é de que “cada lugar situa-se numa série de ‘campos’ que estruturam o espaço, cuja interferência local forma um sistema; que cada situação define-se em relação a fluxos, por conseguinte em relação a centros, direções, limites.” (p.179). A segunda hipótese “[...] é que estas estruturas e as suas combinações podem ser representadas por modelos. Estes [...] são simplificados, redutores provisórios, constituindo uma abordagem simplificada da complexidade [...].” (p.179). A terceira hipótese é a de que

estes modelos podem ter uma expressão gráfica. A expressão gráfica tem sobre o discurso linear a superioridade de poder ser apreendida no espaço e, por conseguinte, de ser melhor adaptada para simbolizar a organização espacial, de ser mais sintética e ter neste domínio uma melhor eficácia demonstrativa. Essa premissa supõe, contudo, que tenhamos em conta as regras da semiologia gráfica, que produzamos “imagens para ver” e não “imagens para ler”, segundo a distinção de Jacques Bertin. (THÉRY, 2004, p.179, grifo nosso).

Théry (2004) e Waniez (2002) apresentam alguns modelos elementares que compõem o modelo específico do Brasil (figura 10.5). Uma das críticas à modelização gráfica é que os territórios analisados são geralmente representados por figuras geométricas, geralmente círculos, triângulos e quadrados. Par demonstrar que isso não constitui um problema para a modelização gráfica, Théry (2004) apresenta, ao lado de cada modelo elementar, o correspondente aplicado ao limite territorial do Brasil. Waniez (2002) considera alguns outros modelos elementares importantes para o entendimento da configuração espacial brasileira: a dispersão(50) do crescimento, as redes de comunicação e a malha estadual.

 


FIGURA 10.5 – Exemplos de modelos elementares do Brasil

 

Segundo Théry (2004) a construção de modelos gráficos é a busca das estruturas fundamentais do espaço e das lógicas que deram origem à sua configuração, sendo a escala de trabalho um fator indiferente nesta abordagem. Para que um modelo gráfico seja eficiente ele deve “dar conta das localizações, das configurações espaciais observadas, de justificar, pelo jogo das interações, combinações e de algumas contingências locais, todas as irregularidades e deformações que aparecem.” (THÉRY, 2004, p.181). Para Ferras (1993) a modelizaçao depende de cinco habilidades: “1) a escolha de elementos significativos na complexidade do real; 2) evidenciá-los e relacioná-los; 3) domínio dos procedimentos técnicos; 4) proposição de um todo coerente e lógico; 5) uma generalização para comparações possíveis.” (p.43).

O que interessa à modelização gráfica não é estabelecer um modelo de espaço, mas sim identificar as suas estruturas e representá-las através de um modelo gráfico; uma forma sucinta que compreenda os fenômenos geográficos estruturais de interesse do autor. A partir das elaborações teóricas e práticas da modelização gráfica é possível lançar mão de argumentos para explicar o espaço geográfico e, ao mesmo tempo, elaborar questões com base nas configurações verificadas. Além de servir à análise regional, a modelização gráfica é destacadamente um instrumento de comunicação da informação espacial. A coremática constitui a etapa mais avançada da análise espacial por meio do mapa, pois, embora o resultado final do exercício não seja um mapa, a elaboração dos modelos só é possível a partir do entendimento das estruturais verificadas em conjuntos de mapas anteriormente analisados pelo pesquisador. Para a elaboração dos modelos é necessário que o autor trabalhe com a semiologia gráfica e a visualização cartográfica. Modelos e mapas não substituem uns aos outros; eles são complementares. Subjetividade e intencionalidade são cruciais na elaboração dos modelos. É com a modelização gráfica que o discurso geográfico sobre o espaço - e isso inclui o discurso crítico - atinge seu auge. Por isso a importância da modelização gráfica para a proposta de uma Cartografia Geográfica Crítica.

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NOTAS
(46) N.T.: o termo original em francês é graphique, traduzido aqui como representação gráfica. Na tradução da obra La graphique et le traitement graphique de l’information (BERTIN, 1977), o termo graphique foi traduzido como neográfica (A neográfica e o tratamento gráfico da informação) (BERTIN, 1986 [1977]).
(47) N.T.: o termo utilizado por Waniez (2002) em francês é cartomatique.
(48) Acreditamos que a referência de Brunet (1980) a modelos como de von Thünen e Christaller não cabe mais no estágio atual de desenvolvimento da modelização gráfica, cujo objetivo não é procurar estabelecer um padrão para o espaço, mas sim representar e analisar suas principais estruturas. O modelo a que se refere a modelização gráfica não deve ser compreendido como uma generalização dos arranjos, formas, organizações ou estruturas do espaço, mas sim como uma generalização da forma de representá-los.
(49) O modelo elementar também é chamado de modelo teórico de base por Brunet (ver BRUNET, 1980, p.257), ou então estruturas elementares (ver HEES et al., 1992, p.3). Os termos modelo teórico de base e a estrutura elementar referem-se ao modelo elementar teórico representado pelo modelo elementar gráfico. Desta forma, não é raro que se refira aos modelos elementares gráficos como estrutura elementar ou modelo teórico de base.
(50) N.T.: o termo utilizado pelo autor em francês é desserrement.

 

© Eduardo Paulon Girardi
epgirardi@yahoo.com.br
 
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