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Produção e ocupação

A análise do PIB e da PEA fornece fortes indicações sobre a produção (e organização) do espaço geográfico. De acordo com a importância de cada um dos setores da economia é possível presumir como se dá a relação entre sistemas de objetos e sistemas de ações (SANTOS, 2002 [1996]) nos domínios de ação da sociedade na produção do espaço (BRUNET, 2001 [1990]). O PIB brasileiro apresenta crescimento constante, passando de 1,1 trilhão em 2000 para 2,6 trilhões em 2007. Na última década a participação dos três setores da economia na composição do PIB tem se mantido constante, com pequenas variações (gráfico 05). Em 2000 a participação dos setores primário, secundário e terciário no PIB(16) nacional foi de respectivamente, 8%, 37,5% e 58,5%, sendo que na PEA esses três setores participaram com 18,7%, 21,4 e 59,8%.

 

GRÁFICO 5.6 – Evolução da participação dos setores
da economia no PIB 1990-2005


 

Em todas as cinco regiões brasileiras o PIB primário é o que possui menor representatividade entre os três setores da economia. O Centro-Oeste é a região em que o PIB primário é mais representativo (13,6%). Se tomarmos a Amazônia Legal, a representatividade do PIB primário no PIB total da região é de 15,6%. Quanto à participação do PIB primário regional no PIB primário nacional, o Sudeste é a região que mais contribui, com 32,4%, seguida pelo Sul, com 30,4%. O Centro-Oeste é a segunda região que menos contribui, com apenas 13%. Em relação à PEA primária, o Nordeste é a região onde ela é mais representativa, tanto na PEA regional quanto na PEA primária do Brasil. O Centro-Oeste é a região em que a PEA primária é menos representativa na PEA primária nacional e a segunda região em que a PEA primária é menos representativa na PEA regional. Isso reflete o modelo de agricultura da região, que se desenvolve em um campo sem gente.

 

GRÁFICO 5.7 – PIB primário regional - 2000

 

GRÁFICO 5.8 – PEA primária regional - 2000

 

Assim como a população brasileira, a PEA e principalmente o PIB são territorialmente concentrados, sendo os maiores valores verificados na região concentrada e na faixa que acompanha a costa. A PEA é menos concentrada porque nela o setor primário é proporcionalmente mais representativo do que no PIB.

 

PRANCHA 5.9

 

Os mapas da prancha 5.10 representam os municípios brasileiros segundo a participação dos três setores da economia no PIB e na PEA. O mapa do PIB mostra que a classe que engloba o maior número de municípios é aquela na qual predomina o PIB do setor terciário. Essa classe apresenta regiões bem definidas no Norte, Nordeste e norte de Minas Gerais. Nos demais estados ela apresenta-se dispersa. A classe predominância no setor secundário configura pequenas regiões que coincide com centros regionais e capitais estaduais. A classe predominância do setor primário ocorre em uma grande região central do território brasileiro e também na região Sul, e a classe predominância dos setores primário e terciário é importante principalmente no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. No mapa da PEA a classe que concentra mais municípios é a predominância no setor primário. O diferencial territorial desta classe apresenta agrupamentos territorialmente definidos e contínuos, localizados principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Sul e também no estado de Minas Gerais. As classes de predominância do setor terciário e predominância concomitante dos setores primário e terciário ocorrem notada e conjuntamente na região Centro-Oeste, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Amapá, no norte do Paraná e no sul do Rio Grande do Sul. A primeira classe e as duas últimas opõem-se no sentido norte-sul.

Na análise conjunta dos mapas do PIB e da PEA observamos que as classes de predominância do setor terciário e de predominância do setor primário se opõem na região Norte e Nordeste. Enquanto no mapa da PEA a classe de predominância do setor primário abrange grande área do Nordeste e Norte, essas mesmas áreas são abrangidas pela classe de predominância do terciário quando os dados são referentes ao PIB. Talvez isso indique regiões onde a PEA do setor primário, mais representante, tenha baixos rendimentos e a maior fonte de rendimentos venha do setor terciário por meio de cargos públicos e aposentadorias.

 

PRANCHA 5.10

 

Os dados do Censo Demográfico de 2000 mostram que a população ocupada no setor primário é caracterizada predominantemente pelas baixas rendas monetárias. Naquele ano, 33,4% destes trabalhadores não tinham remuneração alguma; 53,9% recebiam até dois salários mínimos; 8,4% recebiam de dois a cinco salários e 4,1% ganhavam mais de cinco salários mínimos. A análise dos dados de rendimento da PEA primária nos municípios brasileiros, representada no mapa 5.2, mostra que territorialmente as baixas rendas estão principalmente no Nordeste e na Amazônia Ocidental, o que coincide com regiões onde a PEA primária é mais significativa. Ao contrário, os maiores rendimentos da PEA primária são verificados no Sudeste e no Centro-Oeste, coincidindo com as regiões onde a PEA primária tem menor participação na PEA total. O Sul é bastante heterogêneo, o que talvez seja indicador da diversidade da agricultura camponesa regional.
O rendimento monetário da PEA deve ser analisado com cuidado, pois o campo não é um lugar somente de produção econômica, é também um lugar de vida. Quando analisamos a produção camponesa, nem tudo que é produzido tem como destino o mercado, o autoconsumo é importante neste sistema. Isso não quer dizer que os camponeses não necessitem participar do mercado, pelo contrário, isso é necessário para que possam vender seus produtos e adquirir bens e serviços para gozarem de melhores condições de vida. A análise conjunta dos mapas 5.2 e 5.3 indica relação entre renda e local de residência da PEA primária. As regiões onde a PEA primária tem maiores rendas monetárias são as mesmas em que maior parte da PEA primária reside em áreas urbanas, o que indica o assalariamento; ao contrário, as regiões em que a PEA primária tem menores rendimentos são aquelas em que a PEA primária reside predominantemente em áreas rurais. Isso indica que as regiões de maiores rendimentos são aquelas em que o campo é predominantemente um lugar de produção e as pessoas ocupadas na agropecuária são dependentes do rendimento monetário. Essas são as regiões onde predominam as relações capitalistas na agricultura. Já as regiões onde os rendimentos monetários são menores e a PEA primária reside em zonas rurais, o campo é um lugar de produção e de vida. Essas regiões são caracterizadas por baixos rendimentos monetários. Parte deste rendimento monetário inferior pode estar ligada à produção de autoconsumo, porém não há dúvidas de que essas são regiões em que a população rural goza de qualidade de vida inferior. Esta segunda constatação indica as regiões onde o campo é local de vida e trabalho e precisa ser valorizado para a melhoria das condições de vida desta parte significativa da população brasileira que aí vive.

 

GRÁFICO 5.9 – PEA do setor primário por classe de rendimento
(salários mínimos)


 

MAPA 5.2

 

MAPA 5.3

 

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NOTAS
(16) Embora os dados do PIB para anos mais recentes (até 2006) já estivessem disponíveis no momento de desenvolvimento da pesquisa, adotamos os dados de 2000 para que fosse possível realizar comparações com os dados do Censo Demográfico de 2000.

 

© Eduardo Paulon Girardi
epgirardi@yahoo.com.br
 
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