| O
Atlas da Questão Agrária Brasileira faz
parte da tese de doutorado em Geografia intitulada "Proposição
teórico-metodológica de uma Cartografia
Geográfica Crítica e sua aplicação
no desenvolvimento do Atlas da Questão Agrária
Brasileira". Esta tese foi desenvolvida
no Programa de Pós-Graduação em
Geografia e no Núcleo de Estudos, Pesquisas e
Projetos de Reforma Agrária (NERA), da Unesp
de Presidente Prudente e contou com o financiamento
da Fundação de Apoio à Pesqisa
do Estado de São Paulo (FAPESP). O Atlas é
resultado da aplicação prática
de nossas proposições sobre a Cartografia
Geográfica Crítica no estudo da questão
agrária no Brasil.
A questão agrária brasileira
tem sido amplamente estudada pela Geografia, História,
Sociologia e Economia. Cada uma dessas ciências
apresenta diferentes abordagens da questão e
para isso se utiliza de referencial teórico e
metodologia particulares. A Geografia tem contribuído
de forma significativa no estudo da questão agrária
no Brasil, contudo, ainda não foi desenvolvida
nenhuma análise geográfica ampla da questão
que enfatize o mapa e o mapeamento no processo analítico.
Outra constatação importante é
que a maioria dos trabalhos sobre o campo brasileiro,
inclusive os da Geografia, não realiza o mapeamento
para as análises. Desta forma, a precária
utilização do mapa no estudo da questão
agrária no Brasil fragiliza a compreensão
da diversidade regional da questão no vasto território
brasileiro. É com base nessas constatações
que se alicerça a justificativa da necessidade
de elaboração deste Atlas.
Para o desenvolvimento deste trabalho adotamos
uma concepção segundo a qual um Atlas,
para além de apresentar e disponibilizar mapas,
os utiliza como parte do discurso geográfico,
o que compreende textos e mapas. Desenvolvemos o Atlas
não só para comunicar aspectos já
conhecidos da questão agrária, mas concentramos
nossos esforços na investigação,
através do mapeamento, dos diversos aspectos
da questão pelo território. Desta forma,
foi possível visualizar novas informações
e compreender as estruturas elementares da questão
agrária brasileira.
Em
nossa análise adotamos o paradigma da questão
agrária (PQA) como referencial teórico.
Este paradigma enfatiza o conjunto de problemas
inerentes à questão agrária e tem
como eixo central de discussão a renda da terra,
o processo de diferenciação e de recriação
do campesinato e as conseqüências do desenvolvimento
do capitalismo no campo. Neste contexto, tomamos o conflito
como indissociável do desenvolvimento e, a partir
desta abordagem, enfatizamos oposição
entre o campesinato e o latifúndio
e agronegócio, os quais consideramos serem
os dois territórios da questão
agrária no Brasil.
Na seção "a
questão agrária" realizamos
discussões sobre a atualidade do tema, tomando
como referência obras clássicas e também
as atuais. Ressaltamos nessa discussão o processo
de desintegração e diferenciação
do campesinato ocasionado pelo desenvolvimento do capitalismo.
Apresentamos também as principais características
da questão agrária hoje, marcada pela
ação dos movimentos socioterritoriais.
As ações desses movimentos vão
além da luta pela terra e englobam temas diversos
como soberania alimentar, direitos humanos e biodiversidade.
A relação entre questão agrária
e desenvolvimento também foi abordada. De modo
geral, é nesse capítulo que apresentamos
nossos posicionamentos teóricos.
A seção "agricultura
e ocupação do território"
traz um breve histórico da importância
da agricultura na ocupação do território
brasileiro, de forma que destacamos o papel fundamental
que a agricultura camponesa tem desempenho no atendimento
do mercado interno. Na seção "configuração
teritorial" são apresentados os principais
elementos da configuração territorial
que dizem respeito à questão agrária.
São enfatizados os aspectos naturais, as obras
humanas o desflorestamento da Amazônia, dentre
outras. As "características
socioeconômicas" comportam a análise
de alguns indicadores de qualidade de vida, da dinâmica
populacional, migração, ocupação,
produção e também uma discussão
sobre a identificação do rural e do urbano
no Brasil. Em seguida é analisado um importante
tema para da questão agrária: "a
estrutura fundiária". Nessa seção
exploramos os dados do Cadastro Rural do INCRA nos anos
de 1992, 1998 e 2003, os dados do Censo Agropecuário
1995/1996 do IBGE e alguns dados preliminares do Censo
Agropecuário de 2006 liberados até o momento.
Trabalhamos com os dados agregados em escala municipal
e por isso foi possível identificar detalhes
da estrutura fundiária no território brasileiro.
Também apresentamos o mapa do índice de
Gini da estrutura fundiária dos municípios
brasileiros, o que é inédito. Na análise
da "agropecuária"
enfatizamos a ocupação na agricultura
e a produção dos principais produtos agrícolas
para o consumo interno ou para a exportação.
Na análise da "luta
pela terra e sua conquista" contextualizamos
a importância da luta pela terra para o avanço
na política agrária brasileira e realizamos
análises sobre o nível de reforma permitido
pela política de assentamentos rurais. Analisamos
também a "violência
no campo" brasileiro, a qual consideramos não
ser sinônimo de conflito. A violência é
praticada principalmente por particulares (fazendeiros,
latifundiários e grileiros) e pelo Estado contra
os trabalhadores rurais, camponeses e suas posses e
propriedades com a finalidade de acabar com o conflito
sem resolver os problemas agrários. Por fim,
na apreensão da "configuração
da questão agrária brasileira",
apresentamos os modelos gráficos que representam
estruturas elementares da questão agrária
e concluímos com uma reflexão sobre a
importância da mudança do modelo de desenvolvimento
agrário para a solução dos problemas
da questão agrária brasileira.
Além
dos mapas e pranchas disponíveis nos típicos
analisados, uma grande quantidade de mapas está
disponível no menu mapas para que o
usuário possa utilizá-los. Esses mapas
serão constantemente atualizados com novos dados.
Solicitamos aos usuários que nos enviem dúvidas,
críticas e sugestões para que possamos
aprimorar o Atlas.
Eduardo
Paulon Girardi
Geógrafo
epgirardi@yahoo.com.br
Presidente
Prudente, agosto de 2008 |